Saudade, é provavelmente, a palavra mais bonita que conheço. E não tem a ver com lamechice ou recordações que me embaciam as lentes...nada disso. É a palavra mesmo. Dizem que é mesmo da nossa língua, não tem tradução possível. É nossa, só nossa!
E aqui na Sala me confesso, que nem a minha melhor amiga sabe, mas foi a única palavra que ponderei em tempos, tatuar. Calma pai, mãe, PONDEREI no passado...descansem os vossos corações e não me deserdem.
E pensei eternizar na minha pele, pelo simples facto de estar habituada a sentir saudade do que já foi e do que nunca aconteceu.
Há aquela saudade que nos fica como um perfume e a saudade daquela carta que nunca escrevemos.
A saudade da porta que nunca abrimos ou do SIM que nunca dissemos.
Do grito que não saiu, do telefonema que nunca chegou.
Saudade de um futuro que é já ali. Do alpendre onde sei que um dia vou estar. Do arco-íris que me vai fazer gostar da chuva.
É estranho, eu sei. Mas reúno em mim duas espécies de saudade, que são tão diferentes e tão iguais.
Separam-se nos factos e unem-se naquele suspiro que todos guardamos em nós.
Numa, é o amor que fica. Noutra, é o amor que nos espera.
No fundo, a vida dói não porque acaba algo mas porque tudo à volta continua.
sábado, 8 de fevereiro de 2014
quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014
Nós e Eles.
Eis alguns pontos que podem ser considerados um MUST nos homens... (li isto algures, ainda não sei se concordo com todos os pontos ou não)
1. Barbas por fazer ou mesmo quando a fazem, com a cara cheia de espuma.
2. Aquela cara de alegria de quando jogam PlayStation.
3. Aquele queixo bem desenhado.
4. Cueca boxer branca ou preta.
5. Piercings e tatuagens.
6. Jeans e blusa branca.
7. Óculos de sol ou óculos para ler dá sempre um ar interessante e intelectual.
8. O acto de conduzir deixa um homem poderoso.
9. Durante o sono, com aquela carinha de inocente e indefeso.
10. O jeito de segurar o nosso cabelo, misturando delicadeza e toque.
11. Quando deita na cama com as mãos atrás da cabeça.
12. Homem com habilidades culinárias.
13. Cabelo desalinhado.
14. Quando eles explicam com a maior facilidade aquela coisa que era super complicada para nós.
15. O jeito de jogar à bola.
16. Estilo! Não precisa de se vestir como toda a gente. Basta mostrar personalidade.
17. Inteligência é definitivamente sexy.
18. Quando ficam sem camisa arranjando algo.
19. Quando fazem o nó da gravata.
20. A tocar viola.
21. Pelos...mas só alguns.
22. Quando brincam com cães/gatos/crianças.
23. Quando eles secam as costas de qualquer maneira e depois do banho ficam sempre umas gotinhas.
24. Aquele perfume que ele deixa na nossa roupa quando nos abraça.
25. Um homem confiante.
26. Quando as veias do pescoço ou braço se sobressaem.
27. Quando eles se declaram sem vergonha ou preconceito de parecer lamechas.
28. Voz rouca falando ao pé do ouvido.
29. Camisa seja de que padrão for.
30. Rabinho jeitoso. SIM! Nós também olhamos para isso.
31. Bom humor.
32. Saber dançar ou cantar. Não precisa de ser um profissional, só uns toques já é bom.
33. Quando eles se riem às gargalhadas!
Meninas, confere?
Meninos, identificam-se?
1. Barbas por fazer ou mesmo quando a fazem, com a cara cheia de espuma.
2. Aquela cara de alegria de quando jogam PlayStation.
3. Aquele queixo bem desenhado.
4. Cueca boxer branca ou preta.
5. Piercings e tatuagens.
6. Jeans e blusa branca.
7. Óculos de sol ou óculos para ler dá sempre um ar interessante e intelectual.
8. O acto de conduzir deixa um homem poderoso.
9. Durante o sono, com aquela carinha de inocente e indefeso.
10. O jeito de segurar o nosso cabelo, misturando delicadeza e toque.
11. Quando deita na cama com as mãos atrás da cabeça.
12. Homem com habilidades culinárias.
13. Cabelo desalinhado.
14. Quando eles explicam com a maior facilidade aquela coisa que era super complicada para nós.
15. O jeito de jogar à bola.
16. Estilo! Não precisa de se vestir como toda a gente. Basta mostrar personalidade.
17. Inteligência é definitivamente sexy.
18. Quando ficam sem camisa arranjando algo.
19. Quando fazem o nó da gravata.
20. A tocar viola.
21. Pelos...mas só alguns.
22. Quando brincam com cães/gatos/crianças.
23. Quando eles secam as costas de qualquer maneira e depois do banho ficam sempre umas gotinhas.
24. Aquele perfume que ele deixa na nossa roupa quando nos abraça.
25. Um homem confiante.
26. Quando as veias do pescoço ou braço se sobressaem.
27. Quando eles se declaram sem vergonha ou preconceito de parecer lamechas.
28. Voz rouca falando ao pé do ouvido.
29. Camisa seja de que padrão for.
30. Rabinho jeitoso. SIM! Nós também olhamos para isso.
31. Bom humor.
32. Saber dançar ou cantar. Não precisa de ser um profissional, só uns toques já é bom.
33. Quando eles se riem às gargalhadas!
Meninas, confere?
Meninos, identificam-se?
domingo, 2 de fevereiro de 2014
O último príncipe.
Isto vai parecer uma coisa comum, mas cada vez mais acho que não deve existir nada como o amor de pais por filhos.
Apesar de ter bons amigos, de ser bem casada, as maiores provas de amor que tive foram sem dúvida dos meus pais. É um amor diferente. A minha mãe sempre se esforçou e fez tudo por mim e o meu pai, mais expressivo e extrovertido, também. Agora descobriu como se escreve aqui no blogue e é aquele senhor que de vez em quando aparece a dizer umas coisas bonitas.
Para quem não o conhece, é fácil fazer uma apresentação: somos duas fotocópias. Não digo que fisicamente, mas psicologicamente. Sei que isso o faz feliz e sei que eu ficaria também, se o meu filho/a absorvesse os meus valores.
Sei que todos os pais do Mundo são os melhores, mas o meu é mesmo o melhor...dá para acreditar nisto? A minha mãe teve um olho clínico, certeiro!
É daquela espécie rara, raríssima. Aquela espécie que acorda para me ir buscar à discoteca ás 4h da manhã, de entrar quase no hall do shopping para eu não apanhar chuva, de fazer uma viagem de 5 horas para trazer madeiras (para vir montar tudo passado uns dias) e voltar para o Porto no mesmo dia...ou de me aparecer aqui á porta, esta sexta feira, de surpresa. Era suposto ele estar no Porto, onde eu achei que estava. E tudo, para me trazer pastéis de Tentúgal, que eu amo!
E isso deu-me anos de vida :)
Obrigada Pai, acho mesmo que és o último príncipe encantado!
PS- Será que ser filha de um príncipe, faz de mim uma princesa? Hummm...espero bem que sim. Isso agrada-me.
Apesar de ter bons amigos, de ser bem casada, as maiores provas de amor que tive foram sem dúvida dos meus pais. É um amor diferente. A minha mãe sempre se esforçou e fez tudo por mim e o meu pai, mais expressivo e extrovertido, também. Agora descobriu como se escreve aqui no blogue e é aquele senhor que de vez em quando aparece a dizer umas coisas bonitas.
Para quem não o conhece, é fácil fazer uma apresentação: somos duas fotocópias. Não digo que fisicamente, mas psicologicamente. Sei que isso o faz feliz e sei que eu ficaria também, se o meu filho/a absorvesse os meus valores.
Sei que todos os pais do Mundo são os melhores, mas o meu é mesmo o melhor...dá para acreditar nisto? A minha mãe teve um olho clínico, certeiro!
É daquela espécie rara, raríssima. Aquela espécie que acorda para me ir buscar à discoteca ás 4h da manhã, de entrar quase no hall do shopping para eu não apanhar chuva, de fazer uma viagem de 5 horas para trazer madeiras (para vir montar tudo passado uns dias) e voltar para o Porto no mesmo dia...ou de me aparecer aqui á porta, esta sexta feira, de surpresa. Era suposto ele estar no Porto, onde eu achei que estava. E tudo, para me trazer pastéis de Tentúgal, que eu amo!
E isso deu-me anos de vida :)
Obrigada Pai, acho mesmo que és o último príncipe encantado!
PS- Será que ser filha de um príncipe, faz de mim uma princesa? Hummm...espero bem que sim. Isso agrada-me.
quinta-feira, 30 de janeiro de 2014
E bibó luxo!!!
No outro dia, enquanto jantava, vi uma reportagem sobre reclusas em Portugal e claro está, sobre a prisão de Tires.
E quase deixei a comida gelar na minha boca, tal foi o tempo que fiquei de boca aberta. As reclusas falavam na cela e descreviam o seu dia a dia na prisão, entre desabafos de saudades e o "se-soubesse-o-que-sei-hoje-ou-se-voltasse-atrás-não-faria-isto", diziam que iam à escola, aprendiam croché e a bordar e trinta por uma linha. Como se aquilo fosse a Universidade Sénior...
e a CELA? A cela estava mais acolhedora e melhor decorada do que o meu quarto...cortinados a condizer com tapete, prateleira com livros, almofadas a fazer pandan com a colcha, etc etc
Ou seja, nada contra a reabilitação VS castigo/condenação. Mas fazer de uma prisão uma colónia de férias, chocou-me. Traficaram, mataram pessoas, assaltaram. Cada uma com o seu crime.
Chocou-me pensar que há Sem abrigos por aí a não cometerem crimes, mas se calhar até deviam para ter comida e roupa lavada.
Chocou-me porque passa-se a mão pelo pêlo e dá-se uma palmadinha nas costas. Faz pensar que o crime compensa...
Fica aqui uma imagem, da diferença de celas aqui e no estrangeiro.
Não sou pelo exagero e pela violência dura nas penas ou sentenças, mas haja bom senso.
É uma prisão gente. Não o Inatel.
E quase deixei a comida gelar na minha boca, tal foi o tempo que fiquei de boca aberta. As reclusas falavam na cela e descreviam o seu dia a dia na prisão, entre desabafos de saudades e o "se-soubesse-o-que-sei-hoje-ou-se-voltasse-atrás-não-faria-isto", diziam que iam à escola, aprendiam croché e a bordar e trinta por uma linha. Como se aquilo fosse a Universidade Sénior...
e a CELA? A cela estava mais acolhedora e melhor decorada do que o meu quarto...cortinados a condizer com tapete, prateleira com livros, almofadas a fazer pandan com a colcha, etc etc
Ou seja, nada contra a reabilitação VS castigo/condenação. Mas fazer de uma prisão uma colónia de férias, chocou-me. Traficaram, mataram pessoas, assaltaram. Cada uma com o seu crime.
Chocou-me pensar que há Sem abrigos por aí a não cometerem crimes, mas se calhar até deviam para ter comida e roupa lavada.
Chocou-me porque passa-se a mão pelo pêlo e dá-se uma palmadinha nas costas. Faz pensar que o crime compensa...
Fica aqui uma imagem, da diferença de celas aqui e no estrangeiro.
Não sou pelo exagero e pela violência dura nas penas ou sentenças, mas haja bom senso.
É uma prisão gente. Não o Inatel.
segunda-feira, 27 de janeiro de 2014
E usarem o Tico e o Teco, não?!
No 1.ano de Faculdade, fui Anti-Praxe.
Quando mudei de curso e Faculdade, fui Caloira do Ano porque rir e ser feliz era regra. Abomino gritos e faltas de respeito, pessoas que confundem integração com humilhação. Apesar de achar que todos esses Duxes e afins deveriam enfiar a colher de pau num sítio que todos sabemos ou até mesmo partirem as fuças num muro de cimento...não deveriam os ditos novatos ter juízo e pensar pela própria cabecinha?! Alguém os ilumine, por favor.
Quando mudei de curso e Faculdade, fui Caloira do Ano porque rir e ser feliz era regra. Abomino gritos e faltas de respeito, pessoas que confundem integração com humilhação. Apesar de achar que todos esses Duxes e afins deveriam enfiar a colher de pau num sítio que todos sabemos ou até mesmo partirem as fuças num muro de cimento...não deveriam os ditos novatos ter juízo e pensar pela própria cabecinha?! Alguém os ilumine, por favor.
sexta-feira, 24 de janeiro de 2014
A ROSA mais CLARA do céu.
Sempre tive e ainda tenho um medo terrível da morte. Não me venham com as teorias que o "pior é estar cá em baixo", que "não têm medo de morrer, quando tiver de ser será" porque quando há algum susto ou possibilidade de irmos desta para melhor, todos se borram de medo. Para mim também já não funciona a parte do "desde que não sofra ou seja rápido"...a sério que ainda há gente que acredita que em alguns casos não há nem um minuto de agonia ou despedida interior? Que a morte aparece simplesmente fofinha e com pezinhos de lã? A sério que ainda há pessoas que acreditam que se deixa este plano serenamente, aceitando simplesmente que "chegou a hora" e que temos de abandonar todos cá em baixo? É uma luta sem tréguas,sempre agridoce.
A semana passada, perdi uma prima bastante jovem e com dois filhos. A Andreia estava longe, no Brasil, onde nasceu e cresceu, e foi apenas durante um período que esteve em Portugal que a conheci. Fora esse tempo, nunca convivi com ela mas a imagem está ainda bem presente em mim. Foi de cancro e com um sofrimento atroz. Deixa uma irmã desolada, um marido obrigatoriamente conformado, uns filhos que só daqui a uns anos entenderão tudo e um pai cuja dor nem quero imaginar. Perder um filho deve ser algo visceral. Nem sequer tem nome, já repararam? Quem perde mãe, fica órfão/ quem perde esposa, fica viúvo...e quem perde filho, chama-se como? Não se chama. Não existe palavra. Não existe sentido.
Ontem soube de mais uma perda. Não era da minha família, mas era do meu coração :) chamava-se Rosa Clara e foi das poucas pessoas que eu senti, até hoje, que realmente gostou de mim. E isso marcou-me para toda a vida. Os nossos caminhos cruzaram-se por uma relação longa que tive com o filho, que passados os desaguisados normais de miúdos que namoraram um dia, ainda hoje faz parte do meu leque de amizades, mesmo que o contacto seja pouco. Toda a família na altura fez parte de mim e eu fiz parte deles. Como adultos sensatos que todos somos, tudo terminou em bem e há um carinho mútuo, ainda que bem guardado numa gaveta própria da minha memória.
Mas com a "Dona Rosa" como eu a chamava, havia muito mais que isso. Havia um respeito, uma admiração pelo sorriso de cada uma.
Devo-lhe muito de tudo o que consegui para terminar o meu curso (para além dos meus pais, claro). Era Modista/Costureira e fez de tudo o que possam imaginar, de tecido, para o meu estágio final, onde dei tudo de mim. E ela, a meu pedido, queimou muito tempo e muitas pestanas a coser e a cortar para uns miúdos que nunca foram meus nem dela. E com essa dedicação, tinha sempre os meus Projectos de Sala impecáveis, elogiados por todos. E quando eu agradecia e lhe contava o sucesso que as peças dela tinham, ficava tão vaidosa e tão orgulhosa...sacudia o cabelo para trás do ombro e comentava "Ah sim...?".
Recordo-me de como me recebia bem, do pânico que tinha a andar de carro com o filho e comigo, do tratamento ás pernas que tantas vezes acompanhei, de ter aprendido o que era ser "rapioqueira" (algo que contava ter sido na juventude, com os cabelos loiros registados nas fotografias que tinha)e da gargalhada dela.
Nunca mais a vi, já lá vão 12 anos, embora soubesse que ela sempre esperou uma visita minha. Não quis porque os nossos caminhos tinham mudado, para poupar algum constrangimento, e acima de tudo, para evitar alguma emoção forte que pudesse ter.
Ironicamente, foi o coração que a traiu...o que ela tinha de maior e mais genuíno. Aquele onde sei que eu também estava.
Ganhou o céu, perdemos nós e toda a família dela, cuja dor deve ser incontornável.
Onde quer que ela esteja, está certamente vaidosa por estas palavras. É, nesta altura, a rosa mais clara do céu.
Por isto e muito mais, não me digam que a morte não mete medo a ninguém. Que é só uma viagem, que tem de ser e temos de aceitar. Não se ponham com merdas, como se algo bom se tirasse daí e como se fosse um pesadelo viver para sempre. Há em todos nós, uma milésima de esperança que sejamos um dos últimos habitantes deste jogo. Que demore e demore, e demore. Ninguém é totalmente humano para aceitar calmamente enforcar o próprio coração.
Quem nunca teve pena de perder uma Andreia ou uma Rosa na vida?
Quem já nasceu morto, certamente.
A semana passada, perdi uma prima bastante jovem e com dois filhos. A Andreia estava longe, no Brasil, onde nasceu e cresceu, e foi apenas durante um período que esteve em Portugal que a conheci. Fora esse tempo, nunca convivi com ela mas a imagem está ainda bem presente em mim. Foi de cancro e com um sofrimento atroz. Deixa uma irmã desolada, um marido obrigatoriamente conformado, uns filhos que só daqui a uns anos entenderão tudo e um pai cuja dor nem quero imaginar. Perder um filho deve ser algo visceral. Nem sequer tem nome, já repararam? Quem perde mãe, fica órfão/ quem perde esposa, fica viúvo...e quem perde filho, chama-se como? Não se chama. Não existe palavra. Não existe sentido.
Ontem soube de mais uma perda. Não era da minha família, mas era do meu coração :) chamava-se Rosa Clara e foi das poucas pessoas que eu senti, até hoje, que realmente gostou de mim. E isso marcou-me para toda a vida. Os nossos caminhos cruzaram-se por uma relação longa que tive com o filho, que passados os desaguisados normais de miúdos que namoraram um dia, ainda hoje faz parte do meu leque de amizades, mesmo que o contacto seja pouco. Toda a família na altura fez parte de mim e eu fiz parte deles. Como adultos sensatos que todos somos, tudo terminou em bem e há um carinho mútuo, ainda que bem guardado numa gaveta própria da minha memória.
Mas com a "Dona Rosa" como eu a chamava, havia muito mais que isso. Havia um respeito, uma admiração pelo sorriso de cada uma.
Devo-lhe muito de tudo o que consegui para terminar o meu curso (para além dos meus pais, claro). Era Modista/Costureira e fez de tudo o que possam imaginar, de tecido, para o meu estágio final, onde dei tudo de mim. E ela, a meu pedido, queimou muito tempo e muitas pestanas a coser e a cortar para uns miúdos que nunca foram meus nem dela. E com essa dedicação, tinha sempre os meus Projectos de Sala impecáveis, elogiados por todos. E quando eu agradecia e lhe contava o sucesso que as peças dela tinham, ficava tão vaidosa e tão orgulhosa...sacudia o cabelo para trás do ombro e comentava "Ah sim...?".
Recordo-me de como me recebia bem, do pânico que tinha a andar de carro com o filho e comigo, do tratamento ás pernas que tantas vezes acompanhei, de ter aprendido o que era ser "rapioqueira" (algo que contava ter sido na juventude, com os cabelos loiros registados nas fotografias que tinha)e da gargalhada dela.
Nunca mais a vi, já lá vão 12 anos, embora soubesse que ela sempre esperou uma visita minha. Não quis porque os nossos caminhos tinham mudado, para poupar algum constrangimento, e acima de tudo, para evitar alguma emoção forte que pudesse ter.
Ironicamente, foi o coração que a traiu...o que ela tinha de maior e mais genuíno. Aquele onde sei que eu também estava.
Ganhou o céu, perdemos nós e toda a família dela, cuja dor deve ser incontornável.
Onde quer que ela esteja, está certamente vaidosa por estas palavras. É, nesta altura, a rosa mais clara do céu.
Por isto e muito mais, não me digam que a morte não mete medo a ninguém. Que é só uma viagem, que tem de ser e temos de aceitar. Não se ponham com merdas, como se algo bom se tirasse daí e como se fosse um pesadelo viver para sempre. Há em todos nós, uma milésima de esperança que sejamos um dos últimos habitantes deste jogo. Que demore e demore, e demore. Ninguém é totalmente humano para aceitar calmamente enforcar o próprio coração.
Quem nunca teve pena de perder uma Andreia ou uma Rosa na vida?
Quem já nasceu morto, certamente.
quarta-feira, 22 de janeiro de 2014
É sempre tão bom ler o que ele tem para dizer.
"Só um Mundo de Amor pode Durar a Vida Inteira"
Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo.
O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixonade verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.
Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios.Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.
Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há,estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço.
Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?
O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida,o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar.
O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende.
O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado,viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a Vida inteira, o amor não.
Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.
Miguel Esteves Cardoso, in 'Jornal Expresso'
Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo.
O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixonade verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.
Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios.Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.
Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há,estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço.
Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?
O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida,o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar.
O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende.
O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado,viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a Vida inteira, o amor não.
Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.
Miguel Esteves Cardoso, in 'Jornal Expresso'
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