Sei que não te conheci num café ou num encontro de amigos. Lembro-me bem que não te convidei sequer para entrares na minha vida.
Por simpatia, demorei tempo demais a fechar-te a porta e por teimosia, achei que te convenceria a partir. Ainda hoje sou crédula em tanta coisa!
Há 6 anos tivemos um encontro imediato, numa Sala de espera de um Hospital em que tive tempo para fazer todas as perguntas que queria. Dizem que és Crónica. Pois bem, eu sou Crónica e meia porque tenho um dom especial para bater sempre na mesma tecla. Continuo crédula, crente demais para me convencer que não te consigo dar a volta.
Já alguma vez te disse tudo o que me foste tirando e dando em proporções tão ingratas? Hoje tenho lata suficiente para te dizer que nunca gostei de ti. Tu tens, ao longo dos anos, tido mais apreço por mim. Atreves-te a ir comigo para o trabalho, a mexer com os meus movimentos. E dormes tantas vezes comigo. Fecho tudo, fecho até o coração mas tu não me abandonas. Já te pedi quase sufocada, já te pedi a chorar, já te pedi em voz alta e enquanto sonhava: por favor, desiste de mim. Como desististe naquela noite em Janeiro, que só tu e eu sabemos, que nem por ser 5h da manhã te foste embora. Lembras-te quando me sentei no chão, sem força para mais nada? Como te tentei combater com a dita da bomba e tu foste mais forte? Venceste-me pelo cansaço e eu adormeci em cima de ti. Deixaste-me ali, exausta e recuperar sabe-se lá o quê.
Só quem te tem ou quem te viu já, sabe a luta que é.
Hoje estou estável e torço todos os dias para que não te lembres que algum dia te deixei entrar. Se voltares, tens uma chá de gengibre em cima da mesa, daqueles que picam mas que te mantém entretida a uns metros daqui.
Não penses que estou sozinha. Tenho toda uma brigada a combater ao meu lado. Sabes porquê?
Não, não sabes nem nunca irás saber. Como sei que te estás a cagar para todas as vezes que senti o coração a saltar pela boca, a tosse a puxar-me as lágrimas e de todas as vezes que parei o carro por tua causa. De todas as vezes que disfarcei estar mal para não se assustarem, de todas as gargalhadas deixadas a meio e de todas as vezes que miúdos de quatro anos me perguntaram se me doía o peito.
Minha querida Asma, o Mundo é redondo. Gira. E eu sei que te voltarei a ver. Aí, tem cuidado comigo.
Porque nada pára uma grande decisão. E eu decidi ser feliz.
quarta-feira, 13 de maio de 2015
domingo, 12 de abril de 2015
As princesas do Para Sempre
Hoje escrevo para todos os olhos que não se fecham sem um suspiro de Boa Noite. Para quem cresce com os sonhos de uma árvore, presa à Terra mas grande como o pensamento.
Para todos os sorrisos sem dono, para os corações que não dormem e esperam sempre. Ali,no mesmo sítio e à mesma hora.
Para as que não perdem de vista a esperança, para quem acredita que o mar afinal não acaba ali e que nada acaba aqui.
Para todas as lágrimas caídas no fim da estrada percorrida. De alegria. De alívio ou de dor. E tantas vezes dói. Eu sei que dói. Para todas as que acham que morrem na praia. Nunca se morre na praia. Apenas nos é mostrado que não é por ali.
Para as duronas de serviço, que são as primeiras a abraçar a almofada. As que estão prontas para o que der e vier, armadas de defesas até aos dentes e que no fundo só querem um jantar à beira-mar.
Para todas as caras coradas que nunca tiveram um pequeno-almoço na cama, não mudam as flores da jarra para não verem espaços vazios. Para as que guardam os bilhetes de cinema, naquela bolsinha do meio ou no lugar das notas.
Para todas as princesas sem coroa, que sabem com quantos quilates se cobre um desejo. Para as pequenas estrelas que todas nós temos e que nos borramos de medo que nem sempre brilhem.
Para todas as que vêem um herói de capa e espada a caminho, demore o tempo que demorar. Para todas as que já não acreditam que ele chegue, mas que ainda suspiram com a ideia.
Para todas as que sabem o valor de um beijo, da carta nunca escrita ou das desculpas que nunca chegaram ou chegarão.
Ás que sonham dançar à chuva ou no meio do nada, puxadas por um qualquer desconhecido.
São estas as princesas do Para Sempre, seja qual for a duração do sonho, da ilusão, da utopia.
Porque em cada Sempre existe um aperto no peito, um desejo de Que Seja Agora.
Em cada Sempre há um Para Sempre que guardamos cá dentro, na gaveta do Até que Enfim.
Para todos os sorrisos sem dono, para os corações que não dormem e esperam sempre. Ali,no mesmo sítio e à mesma hora.
Para as que não perdem de vista a esperança, para quem acredita que o mar afinal não acaba ali e que nada acaba aqui.
Para todas as lágrimas caídas no fim da estrada percorrida. De alegria. De alívio ou de dor. E tantas vezes dói. Eu sei que dói. Para todas as que acham que morrem na praia. Nunca se morre na praia. Apenas nos é mostrado que não é por ali.
Para as duronas de serviço, que são as primeiras a abraçar a almofada. As que estão prontas para o que der e vier, armadas de defesas até aos dentes e que no fundo só querem um jantar à beira-mar.
Para todas as caras coradas que nunca tiveram um pequeno-almoço na cama, não mudam as flores da jarra para não verem espaços vazios. Para as que guardam os bilhetes de cinema, naquela bolsinha do meio ou no lugar das notas.
Para todas as princesas sem coroa, que sabem com quantos quilates se cobre um desejo. Para as pequenas estrelas que todas nós temos e que nos borramos de medo que nem sempre brilhem.
Para todas as que vêem um herói de capa e espada a caminho, demore o tempo que demorar. Para todas as que já não acreditam que ele chegue, mas que ainda suspiram com a ideia.
Para todas as que sabem o valor de um beijo, da carta nunca escrita ou das desculpas que nunca chegaram ou chegarão.
Ás que sonham dançar à chuva ou no meio do nada, puxadas por um qualquer desconhecido.
São estas as princesas do Para Sempre, seja qual for a duração do sonho, da ilusão, da utopia.
Porque em cada Sempre existe um aperto no peito, um desejo de Que Seja Agora.
Em cada Sempre há um Para Sempre que guardamos cá dentro, na gaveta do Até que Enfim.
quarta-feira, 8 de abril de 2015
Do Teatro, com amor.
Sempre achei que quando Deus distribuiu a expressividade e a emoção, eu me pus três vezes na fila. Exagerei. Podia ter ido só uma, mas teimosa como sou, tinha de fazer diferente...pois claro. Quem me conhece, sabe que quando me rio, o faço sem filtro e com todos os tremeliques a que tenho direito. Quando me enervo, excedo o meu limite numa fracção de segundos: dá-me forte e desaparece ainda mais depressa. Quando choro, é a vergonha total. Ela é soluços, ela é ranho que vai parar à boca e coisas assim nojentas. Quando me espanto ou me admiro, rebento a escala das expressões crédulas mais parvas de sempre: consigo misturar o "naaaa, não acredito" com uma espécie de "F***-se!" ou "Eiiiiiiiii". Mais ou menos isto, vá. E os sustos que apanho só porque sim? Assusto-me com alguém que já lá estava e eu nem dei conta, com uma campainha, uma buzina ou um simples "buhhh".
No meio disto tudo, há a gavetinha das paixões, porque até no gostar eu sou intensa...Nela está aquela que já toda a gente sabe, o Teatro. Não me lembro quando comecei a vibrar com as milhentas hipóteses que todos nós temos de nos levarmos ao limite. De sentir, de permitir sentir. Deixar que a noção de onde começámos e terminámos se perca pelo meio.
Quando decidi frequentar Teatro, decidi escolher-me a mim em primeiro lugar. Por pura paixão. Fi-lo numa altura de grande mudança pessoal, de mares mais agitados que o Deus me livre. Quando escolhi ser eu o amor da minha vida.
Entre exercícios de improviso, jogos de movimento e memorização, virei-me do avesso. Corei. Tremi de nervos. Bloqueei. Travei-me. Ri-me em alturas inconvenientes. Mas senti tudo isso.
Percebi que o medo pode ser o meu melhor amigo, que me empurra para o que tem de ser. Seis meses depois, texto final escolhido e pronto a ser trabalhado.
"Nós não somos a personagem, somos sempre nós...nas pantufas da personagem". Agora sim, let the show begin!
No meio disto tudo, há a gavetinha das paixões, porque até no gostar eu sou intensa...Nela está aquela que já toda a gente sabe, o Teatro. Não me lembro quando comecei a vibrar com as milhentas hipóteses que todos nós temos de nos levarmos ao limite. De sentir, de permitir sentir. Deixar que a noção de onde começámos e terminámos se perca pelo meio.
Quando decidi frequentar Teatro, decidi escolher-me a mim em primeiro lugar. Por pura paixão. Fi-lo numa altura de grande mudança pessoal, de mares mais agitados que o Deus me livre. Quando escolhi ser eu o amor da minha vida.
Entre exercícios de improviso, jogos de movimento e memorização, virei-me do avesso. Corei. Tremi de nervos. Bloqueei. Travei-me. Ri-me em alturas inconvenientes. Mas senti tudo isso.
Percebi que o medo pode ser o meu melhor amigo, que me empurra para o que tem de ser. Seis meses depois, texto final escolhido e pronto a ser trabalhado.
"Nós não somos a personagem, somos sempre nós...nas pantufas da personagem". Agora sim, let the show begin!
segunda-feira, 30 de março de 2015
Um ano.
Há um ano que não chorava por ti. Emocionei-me muitas vezes. Falei contigo e tive discursos unilaterais, em alturas mais confusas em mim, mas chorar mesmo como agora, chorar como quis chorar ao longo do dia e como o fiz enquanto vim para casa...há um ano que não o fazia. Morreste-me da forma mais doce que existe...sem dor. Nunca me doeu teres ido embora. Pode chocar isto, mas nunca me magoaste por teres ido nessa viagem onde ninguém sabe como estás, mas onde eu sei que estás bem melhor. Este dia andava em mim há meses e acho que só tu sabes que os últimos dias foram a conta gotas. Logo eu que achei que tinha exorcizado tudo...mas a saudade nunca se cura, pois não? Guarda-se. Respira-se. Está em nós.
Ao longo deste ano, tanta coisa mudou e eu nem te pude contar. Sei que metade não ouvirias ou não perceberias, porque a tua cabeça já não permitiria, mas sabia que olharias para mim como eu desejo sempre que me olhem: sem cobrar e sem criticar.
A minha vida mudou muito, sabias? Não sei como consegui atingir tanta coisa, mas sei que me passarias a mão na cara, chamar-me-ias de Nocas e ficarias à minha espera como sempre.
Tenho uma coisa para te contar: não regressei ao Porto. Fiquei por Lisboa e foi porque quis. O meu coração ainda é o mesmo e ainda ganha em todas as batalhas.
Tomei várias decisões. Algumas apertaram-me toda, outras tiveram que ser, outras libertaram-me. Conheci pessoas fabulosas, desiludi-me com muitas, aprendi a andar sem GPS, a perceber que há bebidas com álcool que até tolero e a ser mais eu. Ando no Teatro, já te tinha dito? Aquela esquizofrenia de personagens permite-me ser livre e eu preciso tanto disso.
Continuo chorona como tu e embora não tenha confessado a ninguém até ao momento deste post, é contigo que falo de todas as vezes que me sinto sozinha. E são algumas. Não fiques triste, faz parte. Também estou bem e feliz na maior parte das vezes. Tenho tido bons abraços, bons mimos e um batalhão de gente disposto a ir ao fim do mundo por mim. E não, não me admiro, porque sei que cultivo isso e lhes dou em dobro. Posso só pagar em sorrisos, mas sei que contam e muito.
Hoje, por exemplo, senti-me em família. Dei o meu melhor a todos com quem partilhei o meu dia, mas inevitavelmente o meu pensamento fugiu para ti. Senti-me cuidada ao pequeno-almoço, ao almoço, ao lanche e ao jantar. Até comi um Calippo, lembras-te qual é?
Gostava de saber se desse lado também te sentes em família, se ouves o barulho da chuva ou se sentes o cheiro a café (tenho uma cafeteira parecida com a que tinhas, daquelas que faz café que espirra por todo o lado quando ferve e espalha o melhor aroma do mundo), se os prédios são altos ou se ainda te pões ao sol horas a fio, atrás de um vidro, mas só ouviria silêncio.
Esta é a segunda carta que nunca lerás e mesmo assim vale a pena.
Porque o amor vale sempre a pena. Pelos que estão, pelos que já não estão, pelos que vão estando.
E a saudade vale por si. Instala-se e fica. Estende-se. Espalha-se. Ferve de vez em quando.
Como hoje.
Se eu te disser que ainda estou a chorar, continuas a dizer que sou o amor da tua vida?
A tua Nocas, pelo menos, serei sempre.
Ao longo deste ano, tanta coisa mudou e eu nem te pude contar. Sei que metade não ouvirias ou não perceberias, porque a tua cabeça já não permitiria, mas sabia que olharias para mim como eu desejo sempre que me olhem: sem cobrar e sem criticar.
A minha vida mudou muito, sabias? Não sei como consegui atingir tanta coisa, mas sei que me passarias a mão na cara, chamar-me-ias de Nocas e ficarias à minha espera como sempre.
Tenho uma coisa para te contar: não regressei ao Porto. Fiquei por Lisboa e foi porque quis. O meu coração ainda é o mesmo e ainda ganha em todas as batalhas.
Tomei várias decisões. Algumas apertaram-me toda, outras tiveram que ser, outras libertaram-me. Conheci pessoas fabulosas, desiludi-me com muitas, aprendi a andar sem GPS, a perceber que há bebidas com álcool que até tolero e a ser mais eu. Ando no Teatro, já te tinha dito? Aquela esquizofrenia de personagens permite-me ser livre e eu preciso tanto disso.
Continuo chorona como tu e embora não tenha confessado a ninguém até ao momento deste post, é contigo que falo de todas as vezes que me sinto sozinha. E são algumas. Não fiques triste, faz parte. Também estou bem e feliz na maior parte das vezes. Tenho tido bons abraços, bons mimos e um batalhão de gente disposto a ir ao fim do mundo por mim. E não, não me admiro, porque sei que cultivo isso e lhes dou em dobro. Posso só pagar em sorrisos, mas sei que contam e muito.
Hoje, por exemplo, senti-me em família. Dei o meu melhor a todos com quem partilhei o meu dia, mas inevitavelmente o meu pensamento fugiu para ti. Senti-me cuidada ao pequeno-almoço, ao almoço, ao lanche e ao jantar. Até comi um Calippo, lembras-te qual é?
Gostava de saber se desse lado também te sentes em família, se ouves o barulho da chuva ou se sentes o cheiro a café (tenho uma cafeteira parecida com a que tinhas, daquelas que faz café que espirra por todo o lado quando ferve e espalha o melhor aroma do mundo), se os prédios são altos ou se ainda te pões ao sol horas a fio, atrás de um vidro, mas só ouviria silêncio.
Esta é a segunda carta que nunca lerás e mesmo assim vale a pena.
Porque o amor vale sempre a pena. Pelos que estão, pelos que já não estão, pelos que vão estando.
E a saudade vale por si. Instala-se e fica. Estende-se. Espalha-se. Ferve de vez em quando.
Como hoje.
Se eu te disser que ainda estou a chorar, continuas a dizer que sou o amor da tua vida?
A tua Nocas, pelo menos, serei sempre.
quarta-feira, 25 de março de 2015
Olhar de dentro para fora.
"É no olhar, sobretudo, que a amizade se confirma. É no jeito de olhar que nos reconhecemos no primeiro momento, nós, amigos recentes de longas datas. Isso porque amigo tem esse olhar bom: ele nos olha como se realmente quisesse nos ver, sem nenhum outro interesse que não seja a oportunidade boa e rara de partilhar amizade. Ele nos vê e permanece ao nosso lado, esse conforto que palavra alguma é capaz de traduzir. Esse detalhe grandioso que faz toda a mágica acontecer, porque amar é também a arte de cuidar com os olhos."
Ana Jácomo
Ana Jácomo
sábado, 21 de março de 2015
E se o Medo não fosse real?
O que faria eu, se não tivesse uma ponta que fosse, de Medo? Medo só pelo Medo. Só pela estranheza da palavra. Há sempre Medo de alguma coisa. De uma luz que não aparece, de uma frase que ainda não foi dita, da decisão que já sentimos que nasceu cá dentro. Todos nós temos Medo. Irracional, imprevisível, não traduzível em palavras. Não mostrado em afectos. Não sentido nos lábios. Todos nós já deixamos o coração colado ás costas. Já mordemos a língua para não dizer o que magoa. Todos nós já atiramos com as chaves para o meio do chão.
Tememos tudo como mortais, mas desejamos tudo como se fossemos imortais. E todos acreditamos facilmente naquilo que se teme e se deseja. Como se não valesse a pena nada que nos tire do sério, nada que não faça tremer. Tremer.É isso. O MEDO faz tremer.
E traz certezas também. Certezas do rumo a tomar no mais avesso dos dias. Nas noites em claro.
E se o Medo não fosse real? Teria eu olhar de menina em corpo de mulher? Pensaria tanto nas respostas que ás vezes procuro? Arriscaria tanta estrada na minha vida? Pararia de me questionar sobre o que já sei?
Entregaria os pontos, sem mais nada? Deixava-me estar, quieta, sem pensar em nada, deitada num abraço?
Se o Medo faz parte, porque inventaram a consciência? Porque pensamos duas vezes, se o Medo nos pode lixar à primeira?
Tenho Medo sim, tu que estás a ler também. E tu, e tu e tu também. Ás vezes mais do que um Medo. Mais do que uma vez.
E o mais estranho de tudo, é que espero tê-lo sempre. Só o Medo fala comigo quando penso em travar o que tem de ser feito. Só ele me empurra quando peço mais uns minutos.
No dia em que o Medo não se importar comigo, já cá não estou.
O que faria eu, se não tivesse uma ponta que fosse, de Medo? Medo só pelo Medo.
Sim, é isso...tenho Medo de saber.
Tememos tudo como mortais, mas desejamos tudo como se fossemos imortais. E todos acreditamos facilmente naquilo que se teme e se deseja. Como se não valesse a pena nada que nos tire do sério, nada que não faça tremer. Tremer.É isso. O MEDO faz tremer.
E traz certezas também. Certezas do rumo a tomar no mais avesso dos dias. Nas noites em claro.
E se o Medo não fosse real? Teria eu olhar de menina em corpo de mulher? Pensaria tanto nas respostas que ás vezes procuro? Arriscaria tanta estrada na minha vida? Pararia de me questionar sobre o que já sei?
Entregaria os pontos, sem mais nada? Deixava-me estar, quieta, sem pensar em nada, deitada num abraço?
Se o Medo faz parte, porque inventaram a consciência? Porque pensamos duas vezes, se o Medo nos pode lixar à primeira?
Tenho Medo sim, tu que estás a ler também. E tu, e tu e tu também. Ás vezes mais do que um Medo. Mais do que uma vez.
E o mais estranho de tudo, é que espero tê-lo sempre. Só o Medo fala comigo quando penso em travar o que tem de ser feito. Só ele me empurra quando peço mais uns minutos.
No dia em que o Medo não se importar comigo, já cá não estou.
O que faria eu, se não tivesse uma ponta que fosse, de Medo? Medo só pelo Medo.
Sim, é isso...tenho Medo de saber.
quarta-feira, 18 de março de 2015
É por isso que gosto deste homem.
"Passaram 40 anos de um sonho chamado Abril.
E lembro-me do texto de Jorge de Sena…. Não quero morrer sem ver a cor da liberdade.
Passaram quatro décadas e de súbito os portugueses ficam a saber, em espanto, que são responsáveis de uma crise e que a têm que pagar…. civilizadamente, ordenadamente, no respeito das regras da democracia, com manifestações próprias das democracias e greves a que têm direito, mas demonstrando sempre o seu elevado espírito cívico, no sofrer e Calar.
Sou dos que acreditam na invenção desta crise.
Um “directório” algures decidiu que as classes médias estavam a viver acima da média. E de repente verificou-se que todos os países estão a dever dinheiro uns aos outros…. a dívida soberana entrou no nosso vocabulário e invadiu o dia a dia.
Serviu para despedir, cortar salários, regalias/direitos do chamado Estado Social e o valor do trabalho foi diminuído, embora um nosso ministro tenha dito decerto por lapso, que “o trabalho liberta”, frase escrita no portão de entrada de Auschwitz.
Parece que alguém anda à procura de uma solução que se espera não seja final.
Os homens nascem com direito à felicidade e não apenas à estrita e restrita sobrevivência.
Foi perante o espanto dos portugueses que os velhos ficaram com muito menos do seu contrato com o Estado que se comprometia devolver o investimento de uma vida de trabalho. Mas, daqui a 20 anos isto resolve-se.
Agora, os velhos atónitos, repartem o dinheiro entre os medicamentos e a comida.
E ainda tem que dar para ajudar os filhos e netos num exercício de gestão impossível.
A Igreja e tantas instituições de solidariedade fazem diariamente o milagre da multiplicação dos pães.
Morrem mais velhos em solidão, dão por eles pelo cheiro, os passes sociais impedem-nos de sair de casa, suicidam-se mais pessoas, mata-se mais dentro de casa, maridos, mulheres e filhos mancham-se de sangue , 5% dos sem abrigo têm cursos superiores, consta que há cursos superiores de geração espontânea, mas 81.000 licenciados estão desempregados.
Milhares de alunos saem das universidades porque não têm como pagar as propinas, enquanto que muitos desistem de estudar para procurar trabalho.
Há 200.000 novos emigrantes, e o filme “Gaiola Dourada” faz um milhão de espectadores.
Há terras do interior, sem centro de saúde, sem correios e sem finanças, e os festivais de verão estão cheios com bilhetes de centenas de euros.
Há carros topo de gama para sortear e auto-estradas desertas. Na televisão a gente vê gente a fazer sexo explícito e explicitamente a revelar histórias de vida que exaltam a boçalidade.
Há 50.000 trabalhadores rurais que abandonaram os campos, mas há as grandes vitórias da venda de dívida pública a taxas muito mais altas do que outros países intervencionados.
Há romances de ajustes de contas entre políticos e ex-políticos, mas tudo vai acabar em bem…estar para ambas as partes.
Aumentam as mortes por problemas respiratórios consequência de carências alimentares e higiénicas, há enfermeiros a partir entre lágrimas para Inglaterra e Alemanha para ganharem muito mais do que 3 euros à hora, há o romance do senhor Hollande e o enredo do senhor Obama que tudo tem feito para que o SNS americano seja mesmo para todos os americanos. Também ele tem um sonho…
Há a privatização de empresas portuguesas altamente lucrativas e outras que virão a ser lucrativas. Se são e podem vir a ser, porque é que se vendem?
E há a saída à irlandesa quando eu preferia uma…à francesa.
Há muita gente a opinar, alguns escondidos com o rabo de fora.
E aprendemos neologismos como “inconseguimento” e “irrevogável” que quer dizer exactamente o contrário do que está escrito no dicionário.
Mas há os penalties escalpelizados na TV em câmara lenta, muito lenta e muito discutidos, e muita conversa, muita conversa e nós, distraídos.
E agora, já quase todos sabemos que existiu um pintor chamado Miró, nem que seja por via bancária. Surrealista…
Mas há os meninos que têm que ir à escola nas férias para ter pequeno- almoço e almoço.
E as mães que vão ao banco…. alimentar contra a fome , envergonhadamente , matar a fome dos seus meninos.
É por estes meninos com a esperança de dias melhores prometidos para daqui a 20 anos, pelos velhos sem mais 20 anos de esperança de vida e pelos quarentões com a desconfiança de que não mudarão de vida, que eu não quero morrer sem ver a cor de uma nova liberdade."
- Júlio Isidro
E lembro-me do texto de Jorge de Sena…. Não quero morrer sem ver a cor da liberdade.
Passaram quatro décadas e de súbito os portugueses ficam a saber, em espanto, que são responsáveis de uma crise e que a têm que pagar…. civilizadamente, ordenadamente, no respeito das regras da democracia, com manifestações próprias das democracias e greves a que têm direito, mas demonstrando sempre o seu elevado espírito cívico, no sofrer e Calar.
Sou dos que acreditam na invenção desta crise.
Um “directório” algures decidiu que as classes médias estavam a viver acima da média. E de repente verificou-se que todos os países estão a dever dinheiro uns aos outros…. a dívida soberana entrou no nosso vocabulário e invadiu o dia a dia.
Serviu para despedir, cortar salários, regalias/direitos do chamado Estado Social e o valor do trabalho foi diminuído, embora um nosso ministro tenha dito decerto por lapso, que “o trabalho liberta”, frase escrita no portão de entrada de Auschwitz.
Parece que alguém anda à procura de uma solução que se espera não seja final.
Os homens nascem com direito à felicidade e não apenas à estrita e restrita sobrevivência.
Foi perante o espanto dos portugueses que os velhos ficaram com muito menos do seu contrato com o Estado que se comprometia devolver o investimento de uma vida de trabalho. Mas, daqui a 20 anos isto resolve-se.
Agora, os velhos atónitos, repartem o dinheiro entre os medicamentos e a comida.
E ainda tem que dar para ajudar os filhos e netos num exercício de gestão impossível.
A Igreja e tantas instituições de solidariedade fazem diariamente o milagre da multiplicação dos pães.
Morrem mais velhos em solidão, dão por eles pelo cheiro, os passes sociais impedem-nos de sair de casa, suicidam-se mais pessoas, mata-se mais dentro de casa, maridos, mulheres e filhos mancham-se de sangue , 5% dos sem abrigo têm cursos superiores, consta que há cursos superiores de geração espontânea, mas 81.000 licenciados estão desempregados.
Milhares de alunos saem das universidades porque não têm como pagar as propinas, enquanto que muitos desistem de estudar para procurar trabalho.
Há 200.000 novos emigrantes, e o filme “Gaiola Dourada” faz um milhão de espectadores.
Há terras do interior, sem centro de saúde, sem correios e sem finanças, e os festivais de verão estão cheios com bilhetes de centenas de euros.
Há carros topo de gama para sortear e auto-estradas desertas. Na televisão a gente vê gente a fazer sexo explícito e explicitamente a revelar histórias de vida que exaltam a boçalidade.
Há 50.000 trabalhadores rurais que abandonaram os campos, mas há as grandes vitórias da venda de dívida pública a taxas muito mais altas do que outros países intervencionados.
Há romances de ajustes de contas entre políticos e ex-políticos, mas tudo vai acabar em bem…estar para ambas as partes.
Aumentam as mortes por problemas respiratórios consequência de carências alimentares e higiénicas, há enfermeiros a partir entre lágrimas para Inglaterra e Alemanha para ganharem muito mais do que 3 euros à hora, há o romance do senhor Hollande e o enredo do senhor Obama que tudo tem feito para que o SNS americano seja mesmo para todos os americanos. Também ele tem um sonho…
Há a privatização de empresas portuguesas altamente lucrativas e outras que virão a ser lucrativas. Se são e podem vir a ser, porque é que se vendem?
E há a saída à irlandesa quando eu preferia uma…à francesa.
Há muita gente a opinar, alguns escondidos com o rabo de fora.
E aprendemos neologismos como “inconseguimento” e “irrevogável” que quer dizer exactamente o contrário do que está escrito no dicionário.
Mas há os penalties escalpelizados na TV em câmara lenta, muito lenta e muito discutidos, e muita conversa, muita conversa e nós, distraídos.
E agora, já quase todos sabemos que existiu um pintor chamado Miró, nem que seja por via bancária. Surrealista…
Mas há os meninos que têm que ir à escola nas férias para ter pequeno- almoço e almoço.
E as mães que vão ao banco…. alimentar contra a fome , envergonhadamente , matar a fome dos seus meninos.
É por estes meninos com a esperança de dias melhores prometidos para daqui a 20 anos, pelos velhos sem mais 20 anos de esperança de vida e pelos quarentões com a desconfiança de que não mudarão de vida, que eu não quero morrer sem ver a cor de uma nova liberdade."
- Júlio Isidro
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